No post abaixo, a Dri fez alguns comentários que me forçam a explicar melhor o porquê da minha opinião de que temos um problema de excesso de profissionais qualificados, apesar de a educação formal não ser motivo de orgulho pra nenhum brasileiro.
Como eu disse anteriormente, o Brasil forma todos os anos milhares de bacharéis, mestres e doutores. Isto significa que a mão-de-obra disponível para as empresas brasileiras é, em tese, muito melhor qualificada do que há anos atrás e, oxalá, muito mais produtiva. Ora, se um trabalhador é mais produtivo hoje do que há anos atrás, significa que as empresas precisam de menos trabalhadores para continuar produzindo no mesmo nível anterior. O desemprego estrutural, que acompanhamos há pelo menos 20 anos, é fruto desta lógica. Bem, se um único trabalhador, com nível educacional mais elevado, hoje produz mais do que quatro trabalhadores produziam há 10 anos atrás, as empresas podem pagar a este um salário até 3 vezes maior e ainda assim estarão reduzindo seus custos! Por outro lado, há um incentivo para os trabalhadores buscarem elevar seu nível educacional porque, em primeiro lugar, precisam competir por uma vaga com pessoas de alta "qualificação" que são o foco prioritário para as empresas agora. Além disto, o sujeito pode, de quebra, elevar consideravelmente seus rendimentos. Com rendimentos maiores, a tendência é de que os hábitos de consumo destes trabalhadores também se modifiquem. Afinal, com mais dinheiro no bolso, quem não vai querer comprar aquela tv de sei lá quantas polegadas, dolby-digital-plus-master-tabajara??? Portanto, este processo aumenta o mercado potencial para as empresas que estão instaladas aqui. O comércio cresce, a indústria se fortalece e contrata novos serviços, enfim, viramos primeiro mundo!
Estorinha bonita, né? E por que na vida real o buraco é mais embaixo? Em primeiro lugar, há 30 anos atrás, o Brasil fez uma escolha equivocada, privilegiando o mercado interno ao invés de se voltar para o resto do mundo. Enquanto nos viramos pra dentro, acreditando que era possível desenvolver um mercado forte, fechado para o comércio internacional, outros países resolveram ocupar o espaço de que abrimos mão. Hoje vemos os asiáticos em geral (Coréia, Cingapura, Hong Kong) além dos gigantes China e Índia atendendo a parcelas expressivas do consumo norte-americano e europeu e expandindo a renda a taxas expressivas. Já o Brasil...
E o que isto tem a ver com o mercado de trabalho dos milhares de brasileiros com educação superior que são o tema da discussão? Absolutamente tudo! Ao optar por um modelo que não foi capaz de gerar um crescimento verdadeiro, o Brasil perdeu a oportunidade de se inserir de forma mais marcante no mercado internacional. Não temos um número razoável de grandes empresas brasileiras competindo no mercado mundial. Um parcela bastante expressiva das exportações brasileiras de produtos manufaturados é na forma de transações intra-firmas, ou seja, as grandes multinacionais que operam em escala global e utilizam o país como plataforma de exportação, produzindo aqui porque os custos de mão-de-obra e matéria-prima são menores e vendendo nos grandes mercados mundiais. Significa que o crescimento da economia fica limitado à capacidade do mercado interno de absorver a produção. Se este não cresce, como de fato temos observado há tanto tempo, as empresas não tem nenhum motivo para produzir mais. Se as empresas não produzem mais, vão precisar de cada vez menos trabalhadores, principalmente porque os trabalhadores se esforçarão para serem cada vez mais qualificados e produtivos. Com menos trabalhadores atendendo a mesma produção, o resultado é muito familiar a qualquer um de nós: alto nível de desemprego, baixo crescimento econômico, concentração de renda. Temos então um “exército industrial de reserva” altamente qualificado! Marx ia adorar conhecer o Brasil de hoje...